Na calçada da pracinha, Benê parou no meio do passo. Da túnica, saíram bilhetes voando: “bom dia”, “por favor”, “obrigado”. Um foi parar no banco azul. Benê segurou a barra e sussurrou: “Ué... o que está acontecendo?”
Benê correu até a escola, abraçando a túnica com força. Mas escaparam mais gentilezas. Elas grudaram numa mochila, no portão verde e até na bola do recreio. Com a campainha tocando, Benê perguntou baixinho para uma pessoa do bairro: “Quando isso acontece, tem nome?”
Na rua colorida, Benê tentou adivinhar sozinho. “É alegria?” “É saudade?” “É medo?” A túnica soltou palavras gentis e flores de papel. Benê chutou de leve uma tampinha na calçada e seguiu para casa.
Em casa, Benê sentou no tapete e espalhou os bilhetes pelo chão. Chegaram pequenos cuidados: um copo de água, uma cadeira puxada para perto, uma escuta mansa. Benê leu: “fica tudo bem”. Depois leu: “pode falar”. Então levantou os olhos, pronto para tentar de novo.
Benê juntou os bilhetes nas mãos e falou alto: “É saudade!” Na mesma hora, a túnica fez um redemoinho brilhante. Um abraço de pano se esticou até a janela e quase alcançou a pracinha. Benê soltou um “ah!” e entendeu.
No fim do dia, Benê caminhou até a pracinha com a túnica já quieta. Desta vez, falou do que sentia sem esconder as palavras. O céu ficou laranja atrás da escola. Um vizinho disse: “Saudade tem nome bonito.” Benê sorriu e alisou o pano, mais leve para seguir caminho.