A bola estoura na árvore — TUM. A segunda rola preguiçosa e morre a dez metros de grama. A terceira não sai do lugar. Três círculos amassados marcam o campo vazio enquanto o céu ainda é roxo, e Orion levanta o olhar: uma estrela finca ali em cima.
Ele murmura "nunca". A voz se perde no silêncio da grama amassada. A bola branca e quieta repousa aos pés dele, esperando o amanhã. O campo está deserto; só o vento farfalha as folhas das árvores ao fundo.
O apito corta o ar — falta a favor do time do Orion. Ele se posiciona atrás da bola, a camisa 10 esticada diante da grade de zagueiros. Encosta o pé, balança a perna. O campo inteiro segura a respiração.
A biqueira roça o couro. Nada. Um adversário torce o lábio: "O 10 tá travado!" A voz corta o ronco da torcida. Os zagueiros se agacham, olhos cravados no couro branco. Orion não chuta.
Um toquezinho. A bola desliza pela grama molhada, passa por baixo da grade de pernas, rola sob a trave. Encosta no travessão com um tick fino, absurdo. O couro branco descansa contra o metal, quieto.
Orion nem olha mais pra bola. Olha pra cima: o céu já é azul-escuro e as estrelas estouram, dezenas, centenas, pulsando como quem pisca. Ele lembra a voz da mãe — "Orion, depois de quem brilha no escuro." E o pé já está balançando de novo.
Dessa vez a perna não para. Balança, estica, e a biqueira encontra o couro com um toque firme. A bola assobia por cima da grade, pequena, rápida. O goleiro se joga. Os dedos roçam o couro. A rede estremece de um lado ao outro.
A rede quica, solta, enrosca. O grito da torcida engole o campo inteiro. Orion fica parado, um tênis plantado na grama molhada, olhando a bola se enroscar no fundo da rede. As estrelas acima da trave parecem mais brilhantes que qualquer holofote.
O canto da boca dele sobe, lento. O barulho ao redor ensurdece tudo menos o thud-thud da bola ainda quicando na grama. Ele não grita. Não pula. Só sorri, quieto, com as tênis lamacentas e o céu cheio de luzes pequenas acima.
O time cai em cima dele — chuteiras esguichando, joelhos sujos de grama espalhados pela camisa 10, um riso abafado na pilha. Quando o levantam, ele fica de pé. Pisca pros amigos. As folhas farfalham, o campo silencia: só o vento, e o azul profundo cheio de luzes.