Elisa gira, gira nos lençóis. Chuta o cobertor até ele voar. Paf! Ela para no meio do edredom.
Os sapatinhos brancos brilham no chão. A lâmpada faz faísca neles. Elisa puxa o edredom por cima — não quer olhar.
De manhã. A vovó Lelê estica as fitas dos sapatinhos na frente de Elisa. O chão está gelado.
Elisa encolhe os dedos. A vovó Lelê sorri: «Um por um, amor» Os dedos se curvam, se curvam contra o piso.
Elisa pisca. O primeiro sapatinho desliza no pé. Tique. Pronto. Um pé arrumado.
A vovó Lelê leva a Elisa .O pátio zumba do outro lado da porta. Elisa aperta os lábios. Silêncio.
Do outro lado, uma menina está parada. Agarra a alça da mochila. Os ombros dela balançam, prontos pra entrar.
Elisa olha. A menina olha de volta. Yara estica a mão — a outra abre os dedos e agarra. Aperto. De novo.
Juntas, se puxam pra dentro. Tique-tique. Tique-tique dos sapatinhos no chão da sala. A porta fecha atrás.
Lado a lado. A menina balança uma borracha de cabelo. Elisa sorri, balança a boca junto, sem som. O sol acende os dois pares de sapatinhos no chão.