Vitória caminha pela rua estreita. O sino do café azul tilinta. Ela para.
Olha pra todo lado. Puxa o caderno do bolso. Abre. A página tá em branco.
"Onde eu começo?" ela fala pros seus pés. Vitória desenha o café azul.
Mas a mão desenrola. Os pontinhos viram rítmo de chocalho. Ela passa o dedo na página e raspa.
Rasca. Tenta de novo. O café sai quadrado. Chato. Ela amassa o papel. Pluft.
Cheiro de panela vem da janela do vizinho. Vitória fecha o olho. Lembra da cozinha da vó.
Ela corre pro café. Abre o caderno. Desenha a rua estreita e, no canto, uma panelinha dourada.
E um berimbau pendurado na janela. Vitória desenha mais: um cavaquinho na calçada.
O letreiro da vó na vitrine, e um caracol de cabelo dela espiando.
Ela levanta a página pro luz do café. A sombra do berimbau na parede balança.
Balaça de novo. Tá tocando! "Ah!" ela ri.
Vitória fecha o caderno. Encaixa na bolsa. Sai pra rua. O café tá azul.
A rua tá estreita. Mas ela puxa o caracol, sorri — sorriso largo, moreno.
"Vó, tô aqui." Caminha cantando baixinho um chocalho. A página nova tá em branco.
Ela começa a desenhar.
Fim.