O imenso portão azul da escola fica escancarado para começar o primeiro dia. O grande pátio tem um chão de xadrez preto e branco, banhado pela luz adorável da manhã. Uma pintura bem fresca colore o muro liso sob um grande cartaz de boas-vindas enfeitado com balões brilhantes.
O sapato esquerdo de Lina toca a cerâmica clara da linha de entrada. Ela agarra rigorosamente as duas alças da sua mochila puxando o tecido para baixo. O barulho alto de muitas vozes e passinhos correndo balança pelo ar do pátio inteiro.
Uma bola de borracha vermelha pula sem aviso algum pelo caminho aberto. Poing, poing, poing! O pequeno susto faz a garota recuar um pé rápido encostando as costas inteirinhas contra a grade gelada de metal escuro.
Ela marcha lentamente ao lado da borda do pátio, desempilhando o vento com o bico do calçado. No fundo ensolarado, alunas cantam alto enquanto cruzam uma corda fina. Outros meninos dividem figurinhas reluzentes sem piscar espalhando sorrisos largos.
O peito dela murcha lentamente, soltando todo o ar pela boca até acabar a coragem do lugar barulhento. A caminhada estaciona perante a sombra gigantesca de um muro lateral. O corpo pequenininho toma posse do banco comprido apenas na última fresta solteira da orelha esquerda de madeira lisa.
Uma pancada funda ecoa fazendo um barulho seco na direção oposta do assento. Clac, clac, clac! O colega do lado despeja bastões redondos de todas as cores pela superfície encerada, preenchendo as tábuas compridas com folhas manchadas.
A mais pura curiosidade empurra a linha da sobrancelha dela até quase encostar o desenho da testa na franja. Ela escorrega pelo assoalho polido arrastando o quadril em silêncio absoluto. O pescoço chega esticado querendo decifrar aqueles rabiscos vivos e descontrolados.
A mão dela atravessa o espaço com um dedo indicador fininho e atrevido perguntando da obra de arte. O menino levanta orgulhoso a folha para a única plateia do seu dia. Tem um bicho gigante com aparência de dinossauro roxo gastando as rodinhas dos patins numa melancia bem dentada!
Um riso embolado foge soltando estalos curtos de gargalhada na manhã livre. Sem nenhuma cerimônia, ela captura rindo uma barrinha de colorir que sobrou esquecida na tábua raspando a quina verde no papel mole. Formas pretas de chapéu aparecem sobre o monstro gigante e risonho agorinha mesmo.
Triiiiim! A sirene que acorda o dia esmurra o ar calmo e faz todo mundo marchar veloz. O menino ajeita os rabiscos coloridos na bolsa, mas cede o bastão prestado apertando a ponta fria na palma da nova dupla criativa. E assim os pés dela correm tranquilos até a porta da sala com um sorriso que abraça o relógio.