Sob um céu pontilhado de estrelas, o menino ergue-se na varanda envolto numa capa azul, sentinelando a cidade adormecida. No fim da rua iluminada, um cãozinho minúsculo treme atrás de uma lata de lixo.
Ele se agacha e estende a mão devagar. O cachorrinho se esquiva e corre para as sombras entre dois carros estacionados, desaparecendo de repente.
Ele caminha de ponta de pé atrás do filhote, mas a capa se enrosca num maçaneta com um baque seco.
O menino encontra o filhote enrolado dentro de uma caixa de papelão encharcada, tremendo sob um farol que pisca.
Ele se lembra das palavras da avó e começa a assobiar uma melodia suave de três notas. As orelhinhas do filhote se movem em direção ao som.
Uma buzina estronda e o cachorro foge. O menino se atira à frente e abraça o filhote com força, prensando-o contra o peito.
O filhote para de se debater e espreita por baixo da capa. O menino nota uma pequena placa metálica brilhando no colarinho.
O menino assobia a mesma melodia de três notas mais uma vez, esperançoso de que alguém ouça e venha buscar o filhote.
Uma mulher aparece na esquina com uma lanterna, a luz varrendo o passeio. Ela se ajoelha e recolhe o filhote nos braços.
O menino entrega a placa metálica. A mulher ri e diz que ele é o menino mais corajoso do quarteirão.