O sangue goteja no balde de sal. Pingo… pingo… pingo. O quarto está escuro e o cheiro de ferro sobe pelo nariz.
Lira estende a mão trêmula até a borda do balde, mas recua. O gotejar continua, cadenciado, como um relógio que marca algo que ela não quer entender.
Ela segura a barra do casaco e inspira fundo. O quarto está imóvel. Seu hálito forma nuvens brancas no ar gelado.
Lira dá um passo à frente. O chão range sob seu sapato. Ela para, ouve o gotejar, e novamente se move.
Cada passo mais firme que o anterior. O gotejar não para. Ela se aproxima, e o frio morde seus dedos.
Ela se ajoelha. O joelho bate na madeira. O sal faz um som seco quando ela encosta os dedos na borda do balde.
O sal gruda em seus dedos. Ela solta o ar devagar, longamente, como se finalmente pudesse soltar algo que carregava há muito tempo.
Ela sorri. Fraco, mas real. O gotejar continua, mas agora soa diferente — como se o quarto inteiro estivesse respirando junto com ela.