Theo alinha a bola no gramado verde, os dedos arrastando a grama até marcar o ponto. O sol bate forte nas casas coloridas atrás da grade de metal, estendendo a sombra da bola numa faixa curta. Ele ajeita a chuteira gasta e fita o gol vazio, dez metros à frente. O campo cheira a relva cortada e dia quente.
Ele chuta. BANG metálico no travessão — a bola quica de volta e para ali, nos pés dele. Theo abaixa a cabeça, a sombra descendo sobre a testa. Se eu sempre erro, ele pensa, e rola a bola de novo com o tornozelo. A grama farfalha. O gol continua vazio.
Um passo para trás. Dois. Theo reposiciona a bola, enfiando os dedos na grama fria que amassa sob as chuteiras. Ele respira fundo, conta até três, e o braço balança. O chute rasante rola longo, arrastando poeira, e para dez metros antes da rede. O campo fica em silêncio.
Theo olha para os sapatos gastos, as solas desfiadas, a corda descosturada. Depois olha para a bola, ali, a meio campo. De novo, ele pensa baixo, puxando a bola de volta com o calcanhar. O couro range um tique seco. O sol já desce um pouco.
Dessa vez o braço sobe mais alto, o joelho estica, e a bola CRACKA no ar. Ela sobe, passa pelo travessão, pelo placar laranja, e desaparece atrás das casas coloridas. Theo fica de boca aberta, os dedos ainda estendidos no gesto do chute. O campo inteiro parece prender a respiração.
THUMP macio no telhado de uma das casas vermelhas. Uma pomba explode para fora das telhas, gando, batendo as asas num voo torto. Theo aponta para cima e ri um Há! curto, surpreso, a cabeça jogada para trás. O batoque da pomba ecoa entre as grades de metal, alto, agudo.
Theo corre até a grade e pressiona as palmas no metal frio, chamando para cima com a voz esganiçada. A pomba resmunga de volta, gorda e indiferente, no telhado vermelho. Ele se vira para o vazio onde a bola deveria estar. O campo é grande. A rede, vazia.
Ele ajeita um pinhão áspero na grama e toca a ponta dele com o tornozelo. O pinhão cruza o travessão, a rede range num estalo seco que ecoa pelo campo inteiro. Theo sorri, os cantos da boca puxando para cima devagar. Não é uma bola. Mas é gol.
Outro chute. Tique seco contra a trave, e Theo ri, limpando a testa com as costas da mão. O sol já está baixo, esticando sombras longas e azuladas pelo gramado. As casas coloridas ficam quietas atrás da grade, as janelas escuras. O campo cheira a grama morna e fim de tarde.
Theo enfia o pinhão no bolso e caminha em direção ao túnel de luz no fim do campo. Ele acena para os próprios sapatos gastos, as solas desfiadas, a corda descosturada. Rodada dois, ele pensa, e sai trotejando, os passos batendo secos na terra. A sombra dele se estica, longa, até o portão.