Na nascente de Salesópolis, o espírito do rio nasce. A água está turva e lenta.
O espírito tenta correr. Uma folha grossa cola em seu corpo.
Ele se solta. Um rastro de água limpa brilha como vidro atrás dele.
Ele desce pelas cidades. Garrafas plásticas boiam no caminho.
Ele empurra com a força. As garrafas giram e batem nas pedras.
Ele segue em frente. Um rastro claro fica atrás dele. A água começa a cantar.
Quase no mar, o rio fica largo. Uma pilha de entulho bloqueia tudo.
Tico empurra e empurra. Nada acontece.
Um pássaro bicando uma pedra faz tilintar. Tico vê um canal escondido.
Ele desliza pelo canal. Sai limpo. Gotas caem das folhas.
Na foz, na Ilha Grande, o mar o recebe. Uma onda gigante avança com espuma.
A maré o envolve. Ele se dissolve — e surge cintilante. O sal é novo. Tico flui para o oceano, puro e vivo.